Me deixa ser
quem faz o laço
da gravata
do mordomo
que te serve o jantar.
Me deixa ser
o suporte que segura
a tela plana
da sua sala
no lugar.
Me deixa usar
o pé pra equilibrar
aquela mesa bamba
que você aposentou
há mais de um mês.
Me deixa ser
a sua estátua
de jardim.
O seu cabide de casacos.
Só não me tira de vez
da sua casa...
Eu posso ser a empregada
da empregada,
da empregada,
da empregada...
Do seu tio.
Me deixa ser
o seu pinguim
de geladeira,
eu fico uma semana inteira
sem mexer.
Me deixa ser
o passarinho do relógio
que de hora em hora
pode aparece...
Pra eu te ver.
Me deixa ser
quem passa a calça
que você precisa usar
no seu jantar
à luz de velas
com alguém.
Me deixa ser quem deixa
vocês dois
de carro,
em um restaurante caro.
Só não deixa eu ser ninguém
na sua vida.
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